Planetas Exaltados e Debilitados - Parte I

Desde quando? Será o Exílio dos planetas algo recente?
Aquilo a que hoje designamos por Dignidades e Debilidades Essenciais ( ver Tabela 1) em Astrologia Tradicional, é-nos legado pelas obras de autores que vêm da Antiguidade Clássica, da Astrologia Greco-Romana.

Desde o séc. II, com a obra de Cláudio Ptolomeu, sabe-se que os planetas têm uma posição específica no zodíaco, conhecida como exaltação (hypsomata), onde esses mesmos planetas — Saturno, Júpiter, Marte, Sol, Vénus, Mercúrio e Lua — obtêm o seu maior poder ou importância.
Juntamente com as triplicidades, as casas, os decanatos e os termos, as exaltações representam outro conjunto de posições zodiacais que podem ser utilizadas para interpretar as configurações planetárias em horoscopia e noutras práticas astrológicas.
Em alguns tratados astrológicos, nomeadamente no Tetrabiblos de Cláudio Ptolomeu, as exaltações são definidas como signos zodiacais completos, o que também reflete a forma como eram frequentemente utilizadas na prática astrológica.
Na tradução desta obra editada pela editora portuguesa Sadalsuud, na página 21, dedicada às exaltações, lê-se o seguinte::
As chamadas exaltações dos planetas têm a seguinte explicação. Visto o Sol, quando está em Carneiro, estar a fazer a transição do semicírculo setentrional e superior, e em Balança estar a passar para o meridional e inferior, atribuíram-lhe apropriadamente Carneiro para a sua Exaltação, visto lá a duração do dia e o poder do aquecimento da sua natureza começarem a aumentar, e Balança como a sua Depressão pelas razões opostas.
Saturno, novamente, de forma a ter uma posição oposta à do Sol, como aconteceu no caso das casas, tomou, ao contrário, Balança como sua Exaltação e Carneiro como sua Depressão. Pois onde o calor aumenta, diminui o frio, e onde o primeiro diminui, aumenta, pelo contrário, o frio.
E como a Lua, chegando a uma conjunção na Exaltação do Sol, em Carneiro, mostra a sua primeira fase e começa a aumentar a sua luz e, por assim dizer, a sua altura, no primeiro signo do seu próprio triângulo, Touro, este foi chamado a sua Exaltação e o signo diametralmente oposto , Escorpião, a sua Depressão.
Em seguida, Júpiter, que produz os fecundos ventos do norte, alcança o ponto mais setentrional em Caranguejo e leva o seu próprio poder ao apogeu; fizeram, portanto, esse signo a sua Exaltação e Capricórnio a sua Depressão.
Marte, que por sua natureza é fogoso, e se torna ainda mais em Capricórnio, porque nele está mais a Sul, recebeu naturalmente Capricórnio como sua Exaltação. Em contraste com Júpiter, e Caranguejo como sua Depressão.
Vénus, contudo, como é húmida por natureza e aumenta o seu próprio poder ainda mais em Peixes,, onde se anuncia o começo da húmida primavera, tem a sua Exaltação em Peixes e sua Depressão em Virgem.
Mercúrio, pelo contrário, visto ser mais seco, é naturalmente Exaltado por contraste, por assim dizer, em Virgem, o qual o seco outono é significado, e é Deprimido em Peixes.

A partir desta tradução, fica demonstrado como estes pontos específicos aparecem na obra do autor helenístico como signos zodiacais completos.
Podemos recuar ainda mais no tempo para descobrir as origens das Exaltações e Exílios destes planetas?
Nos trabalhos do assiriologista E. Weidner, fica demonstrado que o sistema helenístico de exaltações (hypsomata) — cada planeta atinge a sua força máxima num signo zodiacal específico — teve origem direta na astronomia e astrologia babilónica, onde as exaltações planetárias são abordadas através do conceito mesopotâmico de bit niṣirti -casa do segredo/tesouro- ou ašar niṣirti - lugar do segredo.
Nas suas publicações sobre textos cuneiformes, destacam-se os seguintes pontos sobre o tema:
Conexão com Constelações:
Weidner traduziu e analisou tabuinhas que associavam deuses e planetas a constelações específicas sob o termo bit niṣirti. Ele provou que estes "lugares secretos" eram as posições celestes onde os babilónios acreditavam que os planetas manifestavam os seus presságios de forma mais favorável ou potente.
Evolução para o Zodíaco:
As investigações de Weidner evidenciam a transição conceptual em que as antigas constelações mesopotâmicas foram mais tarde mapeadas nos signos de 30 graus do zodíaco matemático pelas tradições astrológicas posteriores como a grega e a persa.
Uma vez que as evidências cuneiformes relativas a Locais/ Casas de Segredo são anteriores às Exaltações Greco-Romanas, não há dúvida de que estas últimas derivam da astronomia/astrologia mesopotâmica.
A Origem Mesopotâmica e a Relação da Longitude e Latitude nas Exaltações e Exílios*
O presente texto aborda um aspeto até agora inexplicado das exaltações greco-romanas, nomeadamente o facto de muitas fontes lhes atribuírem graus específicos dentro dos signos do zodíaco. Demonstra-se que estas longitudes derivam das posições das Estrelas Normais babilónicas, com exceção da exaltação do Sol.
Longitudes das Exaltações e Detrimentos/ Depressões
Em pelo menos catorze fontes antigas e da Antiguidade Tardia, as exaltações são especificadas em graus dentro dos signos do zodíaco (Tabela 2).
As Exaltações são frequentemente associadas às Depressões (tapeinomata), que se situam em posições diametralmente opostas no zodíaco.
Quase todas as fontes mencionam o mesmo conjunto de sete valores, mas algumas referem valores diferentes. Foi feito um esforço para incluir na análise apenas os valores preservados em manuscritos e excluir todas as emendas. A história da transmissão das longitudes e a questão de saber quais variantes são genuínas ou resultam de corrupção textual não podem ser abordadas aqui. No entanto, à primeira vista, 21 º de Balança para Saturno poderia ser uma variante genuína de 20 de Balança, uma vez que está atestada em múltiplas fontes. As outras variantes resultam, muito provavelmente, de corrupção textual.
Planeta
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Exaltação/ Signo Zodiacal Fontes Greco-Romanas |
Casa / Lugar de Segredo ( bit nisirti) Mulapin sec. XII a.c |
Sol
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19º Áries |
“ O Homem Contratado” ( parte de Carneiro)
Hired Man
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Lua
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3º Touro |
Pleiades + O Homem Velho + Touro do Céu
Bristle (Pleiades) + Old Man (approx. Perseus + part of Taurus?); Bull of Heaven (part of Taurus)
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Júpiter
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15º Câncer |
Caranguejo Crab
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Mercúrio
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15º Virgo |
O Sulco Furrow
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Saturno
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21ºLibra |
Os Pratos Scales
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Marte
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28º Capricórnio |
Peixe- Cabra Goat-Fish
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Vénus
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27º Peixes |
Andorinha + Pescoço de Anunitu Swallow + Neck of Anunītu
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Tabela 2- Exaltações compiladas de fontes Greco-Romanas e Casas/Lugares de Segredo compiladas de textos mesopotâmicos.
A maioria das fontes é grega, com exceção de três em latim (Plínio, o Velho, Firmico Materno, Marciano de Capela), uma em demótico (P. Carlsberg 81+) e uma em sânscrito (Yavanajātaka).
Uma das fontes mais antigas é a «História Natural» de Plínio, o Velho (século I d.C.), que inclui um relato confuso sobre as exaltações.
No que diz respeito ao Sol e a Vénus, alguns manuscritos da «História Natural» mencionam longitudes alternativas, mas não é claro quais delas remontam a Plínio.
O P. Mich. 149, um papiro grego do Egito datado do final do século I ou início do século II d.C., preserva quatro longitudes. Neste texto, as Exaltações e as Depressões ( Exílio) são referidas de forma única como «tronos» e «prisões», respetivamente:
«tronos nos quais os signos do zodíaco [ou seja, os planetas] são exaltados e têm poder [geral], e prisões nas quais são deprimidos . . . e tornam-se adversos(?)».
Outras fontes gregas e latinas consultadas são:
Antologia de Vettius Valens (século II d.C.)
Contra os Astrólogos, de Sextus Empiricus (c. 200 d.C.), que menciona uma longitude apenas para o Sol
Introdução, de Paulo de Alexandria (século IV d.C.),
Apotelesmatika, de Heféstio de Tebas (séculos IV e V d.C.),
*Mathesis* de Firmico Materno (século IV d.C.),
*Casamento da Filologia com Mercúrio* de Marciano Capela (século V d.C.),
Retório (séculos VI–VII d.C.).
Heféstio de Tebas atribui as longitudes a Doroteus de Sidón, que provavelmente viveu em Alexandria no século I d.C.
Firmico Materno afirma que «os babilónios chamavam “casas” aos signos em que os planetas se encontram exaltados», o que faz eco ao elemento «casa» no termo «casa do segredo».
O próximo texto sobre as Exaltações / Depressões abordará este tema na perspetiva medieval.
*Fonte: F. Rochberg-Halton


