Eclipses
- Filipa Araújo

- há 1 dia
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Nos manuscritos medievais perso-islâmicos

Ilustração decorativa que acompanha o capítulo sobre o eclipse solar numa versão turca otomana, escrita e ilustrada em 1717, de uma famosa enciclopédia sobre história natural intitulada «Aja'ib al-makhluqat» (Maravilhas da criação), composta em árabe no século XIII por al-Qazwini (1202-1283).
Al-Qazwini reuniu para a sua enciclopédia conhecimentos bem estabelecidos e apresentou-os de forma concisa e bem organizada para um vasto público leitor.
As informações que ele fornece sobre o eclipse solar baseiam-se no discurso científico astronómico árabe. Ele explica que o corpo da lua se interpõe entre os nossos olhos e o sol — e que isso só é possível quando o sol e a lua estão alinhados e a lua passa por um dos pontos chamados «cabeça» ou «cauda», referindo-se às interseções da eclíptica com a órbita da lua.
Esses nomes são influenciados pela antiga história do dragão devorando o sol ou a lua, mas são usados no texto de al-Qazwini simplesmente como termos técnicos. Ele explica ainda em que circunstâncias ocorrerá um eclipse parcial. Al-Qazwini observa que a visibilidade desse fenómeno celeste varia de lugar para lugar e que, em alguns países, ele nunca foi visto.
Esta enciclopédia tinha representações ilustrativas de vários fenómenos naturais. No caso do eclipse solar, encontramos no manuscrito mais antigo conhecido desta obra, provavelmente criado sob a supervisão do autor em 1280 (ver fig. 2)

Na sua famosa enciclopédia do século XIII sobre história natural, Aja’ib Al Makhluqat wa Ghara’eb Al Mawjodat, al-Qazwini explica a causa científica do eclipse solar numa transcrição: «... a lua torna-se uma barreira entre a nossa visão e o sol, porque a lua é um corpo celeste opaco que bloqueia a visão do que está por trás dela. Se estiver em conjunção com o sol e estiver num dos dois pontos, «a cabeça» ou «a cauda», ou perto deles, passa por baixo do sol e obstrui a visão».
A denominação «a cabeça» e «a cauda» do eixo da luz foi inspirada na história do dragão que devora o sol e a lua!
No centro está a Terra — rodeada pela órbita da lua, na qual dois círculos representam duas posições diferentes da lua — e além da lua está a órbita do sol.
Esta ilustração inclui duas representações do sol: uma em eclipse total e outra em eclipse parcial.
As linhas radiais indicam as linhas da nossa visão. Este tipo de desenho científico, rotulado, com poucos enfeites — embora o sol esteja marcado com ouro e preto — sofreu uma transformação decorativa no manuscrito otomano. É evidente que na versão de 1717, executada para um vizir otomano, o valor científico da ilustração diminuiu. No entanto, a ilustração ainda se baseia no desenho científico, e a representação do eclipse parcial é ainda mais precisa do que no desenho de 1280, devido à linha de sombra côncava.

Tradução* Completa do Texto no Mansucrito sobre os Eclipses
A causa para [ o eclipse solar] é a lua formar uma barreira entre a nossa visão e o sol, visto que a lua é um corpo celeste opaco que bloqueia a vista do que está detrás dela. Se está conjunta ao sol e está num dos dois pontos, " a cabeça" ou "a cauda" ou perto deles, passa sob o sol e obstrui a visão.
Isso ocorre porque as linhas radiais imaginárias que saem da nossa visão atingem o objeto observado como um cone, cujo vértice é o ponto de visão e a base é o objeto observado. Se a lua estiver entre nós e o sol, o cone atingirá primeiro a lua e, se a lua não tiver declinação da esfera do zodíaco, ela cairá no meio do cone e o sol será totalmente eclipsado. No entanto, se a lua tiver uma declinação, o cone se desviará do sol na medida em que a declinação exigir, e então o eclipse será parcial. Isso acontece se a declinação visível for menor que a metade dos diâmetros do sol e da lua. Se a declinação visível for igual à metade dos diâmetros, a lua será apenas tangente ao cone, e então o sol não será eclipsado. Além disso, se o sol eclipsar, isso não permanecerá por muito tempo, porque a base do cone, se coincidir com a lua, começará a desviar-se dela imediatamente, e o sol reaparecerá. O grau do eclipse muda de acordo com as localizações devido às diferentes vistas, e pode não haver eclipse em alguns países.
*Filipa Araújo ( trad.)


