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O Bebé vai ter hipóteses de sobreviver?

  • Foto do escritor: David Cohen
    David Cohen
  • há 7 dias
  • 7 min de leitura

Como a Astrologia Tradicional analisava un mapa infantil


Hoje em dia consideramos como certo que as crianças sobreviverão e crescerão após o nascimento. Cuidados durante a gestação e progressos na medicina possibilitaram este avanço.





Historicamente, porém, o índice de mortalidade de mães e crianças era elevado

se comparado aos standards atuais. Isto fez com que fossem comuns análises de mapas de recém-nascidos para verificar se sobreviveriam os primeiros anos, considerados os mais difíceis. Estas técnicas tradicionais ainda são úteis – ainda que não indiquem necessariamente a morte do bebê, podem apontar para períodos difíceis ou de crises pelos quais a criança deve passar.

 

O jornal Público do dia 17 de dezembro menciona o início do julgamento de quatro médicos por um suposto homicídio de recém-nascido em Gaia. O caso ocorreu em 2019, quando um recém-nascido morreu cinco horas após o nascimento devido a uma encefalopatia hipóxica-isquêmica (lesão cerebral causada pela falta de oxigênio e fluxo sanguíneo ao cérebro).



Como este é um blog de astrologia, não iremos discutir os argumentos da acusação e da defesa, iremos sim olhar o mapa da infeliz criança.


Como o horário de nascimento e o nome do estabelecimento hospitalar foram mencionados no artigo, podemos calcular o mapa do nascimento.


Após esta análise, olharemos este mesmo mapa de uma forma especulativa: poderia esta criança sobreviver se os médicos tivessem optado por uma cesariana (como a acusação argumenta) assim que os problemas começaram a se fazer presentes?



 

mapa de nascimento do bebé, Vila Nova de Gaia, 2019
mapa de nascimento do bebé, Vila Nova de Gaia, 2019



Estudantes de astrologia tradicional sabem que muitas vezes temos que considerar vários elementos que, tomados isoladamente um do outro podem ser superados mas, quando considerados em conjunto, desenham um realidade mais difícil.

 


Este é um mapa “difícil”. Vamos examinar os pontos principais de acordo com os princípios da astrologia helênica e perso-islâmica.


Adotamos aqui a perspectiva de casas por signos inteiros para significado, e casas por quadrante (Alcabitius) para força de expressão.


Esta análise não é completa, mas serve como uma indicação da direção que o mapa tem.

Uma indicação negativa pode sempre ser contrabalançada por uma positiva, mas é o acúmulo de múltiplas indicações predominantemente em uma direção apenas (positiva ou negativa) que vai dar o tom do mapa de maneira geral.

 

Assim que olhei este mapa, chamou-nos a atenção a posição do Sol e da Lua. Começamos, portanto, a olhar o mapa pelas duas luminárias.

 

Sol


O Sol, que é a luminar do mapa, já que o mapa é diurno, indica frequentemente a vitalidade do nativo.


Observe que neste caso o sol está na casa XII (perdas, infortúnios, inimigos secretos, doenças crônicas e de longa duração) e, ao mesmo tempo, está enfraquecido uma vez que ocupa uma casa cadente (casas por quadrantes).

O Sol também rege a casa VIII (Morte, natureza da morte, angústia, medo, obstáculos e desgraças) e neste caso temos uma ligação entre as duas casas – os temas da casa VIII expressam-se através da casa XII.


Tradicionalmente, o regente da VIII na XII pode indicar uma morte “ruim”, (morte por doença de natureza Solar, e assim por diante).


O Sol não recebe nenhum aspecto, nem mesmo por signo inteiro, de Júpiter ou Vênus, os planetas considerados benéficos.

 

Lua


A Lua simboliza o corpo e também, um fato importante, os primeiros 3 anos após o nascimento da criança. É também a luminária do mapa.



Apesar da Lua reger a casa VII, ela está situada na casa VI (acidentes, doenças, lesões, sofrimento).


Assim como o Sol, ela está numa casa fraca, com pouca expressão, já que é uma casa cadente.


Notem a oposição, quase exata, entre o Sol e a Lua. Neste caso o Sol opõe-se ao corpo da criança através dos significados da casa XII e da casa VIII. A Lua sequer possui algum aspecto, mesmo por signo, com os planetas benéficos.

O aspecto do Sol e Lua está separando-se. Tradicionalmente isto indica algo que “já vem” com a pessoa, ou “já aconteceu” e pode indicar que no nascimento o dano cerebral já era existente.


A Lua também está Vazia de Curso indicando que “nada de novo irá acontecer” nesta vida. Observo que estas interpretações não devem ser levadas literalmente em conta, mas consideradas no conjunto todo do mapa.

 

Vemos, apenas com as luminárias, como as casas VI, VIII e XII – as três casas mais difíceis e “ruins” de um horóscopo – estão salientadas na vida desta criança. A falta de aspectos dos planetas benéficos faz com que a situação seja mais sombria e triste ainda.


 
Os planetas benéficos: Júpiter e Vênus 

Júpiter está em queda, e ainda que esteja na casa I, está afastando-se do Ascendente, já perdendo boa parte de sua força.


Júpiter está a 6 graus do Ascendente, mas estando em queda e enfraquecendo, seu suporte perde muita força.

Júpiter ainda está sob os raios do Sol, ou seja, sofre o efeito debilitando do Sol (que aqui traz juntos os efeitos das casas XII e VIII). Ainda que o efeito negativo de estar sob os raios do Sol não seja tão forte quanto a combustão, isto enfraquece mais o planeta que seria, num mapa diurno, o principal planeta benéfico.


Finalmente, Júpiter rege a casa XII e está situada na casa I (o nativo). Isto traz ao nativo vulnerabilidade com respeito a fatores sobre os quais não tem controle. Note a sequência dos relacionamentos: o Sol, regente da VIII, está na XII, e Júpiter, regente da XII, está na I.

 

Vênus é a segunda benéfica do mapa.


Ainda que potencialmente não tão forte quanto Júpiter já que o mapa é diurno (Vênus seria a principal benéfica num mapa noturno). A influência benéfica de Vênus num mapa diurno é média, lenta, e demorada para trazer resultados. 


Por um lado está na Casa I, angular (forte), e com alguma dignidade (triplicidade e termos).


Infelizmente, está em conjunção quase exata com Saturno. Saturno e Vênus são considerados planetas incompatíveis (imagine um eremita numa caverna em contraste com alguém bem vestido dançando numa festa elegante).  


Vênus rege também a casa V considerada como a casa da “boa fortuna” já que indica de maneira geral coisas boas ao nativo. Mas a conjunção com Saturno, e um sextil com Marte, limitam a boa fortuna e não ajuda a mudar radicalmente a estrutura do mapa.


Apesar de não estar relacionado à nossa discussão, note que Vênus representa também a mãe que neste caso carrega um peso enorme sobre si mesma (Saturno).

 

Os planetas maléficos: Marte e Saturno

 

A astrologia tradicional frequentemente menciona que coisas boas também podem advir dos planetas maléficos, sob certas circunstâncias, mas de maneira geral sempre indicam situações difíceis.


Ao contrário de Vênus e Júpiter, benéficos, que estão restritos no que podem fazer, os maléficos neste mapa são os planetas mais fortes em termos de expressão.


Saturno é o planeta mais próximo do Ascendente, e Marte o mais próximo do Meio do Céu. Note que apesar de Júpiter estar mais perto em graus do Ascendente, está enfraquecendo-se enquanto Saturno está avançando ao encontro do Ascendente, numa posição de muita força de expressão.


Tradicionalmente quando ambas as fortunas estão angulares, isto pode ser um indicador de doenças ou crises ao longo da vida do nativo. Perto do Ascendente acentua o impacto no nativo.

 

Ascendente e Nodo Sul:


Ascendente está conjunto ao Nodo Sul, trazendo de imediato instabilidade e infortúnio para o nativo.


Abu Ma’shar menciona alguns fatos sobre o Nodo Sul, a Cauda do Dragão, que são relevantes neste mapa:


a) A natureza do Nodo Sul, a Cauda do Dragão, é de infortúnio.


b) Na tradição astrológica o elemento “fogo” ou o “calor” está associado à vida. A cauda do dragão, por sua vez, possui uma natureza fria, que “contrai” ao invés de “expandir” (a vida é sempre relacionada a algo que expande)


c) Finalmente, Júpiter, que já está enfraquecido, torna-se ainda mais instável e incapaz de proteger o nativo uma vez que está a menos de 12 graus do Nodo Sul. O Nodo Sul remove de Júpiter parte de sua capacidade de expressar sua natureza benéfica.

 

Triplicidades:


Análise das triplicidades constituem, na verdade, o primeiro passo para verificar a viabilidade da criança sobreviver os primeiros anos.


No caso deste mapa, como a situação do Sol e da Lua claramente se destacam, deixamos as triplicidades para o final.

 

Dorotheus, Sahl e al-Andarzaghar possuem modelos hierárquicos para analisar um mapa infantil. Devem ser avaliados, nesta ordem:


1.     Triplicidade do Ascendente (principalmente a primeira triplicidade, já que estamos mais interessados no suporte que o nativo tem durante a infância)


2.     Triplicidade da luminar da seita (o Sol neste caso)


3.     Triplicidade do Lote da Fortune (porque quando tudo mais falha examinamos se existe algum fator de “sorte” que poderia resgatar o nativo de uma situação difícil)


4.     Júpiter e Vênus

 

Já vimos que Júpiter e Vênus estão sem condições de ajudar o nativo. E o resto?



A Triplicidade do Ascendente e do Lote da Fortuna é Vênus.


Quando falamos das triplicidades, existem outros fatores que temos que levar em conta, e não apenas a situação isolada do planeta. Triplicidade significa “apoio” e apoio requer conexões.

Infelizmente Vênus não pode usufruir do apoio de Júpiter (pela sua fraqueza), e está desconectada do Sol e da Lua. Vênus também recebe um aspecto de Marte, considerado o planeta “maléfico da seita” (o planeta mais difícil do mapa).

A triplicidade do Sol (luminar da seita) é o próprio Sol, que está fraco e ligado às casas mais difíceis do mapa (VIII e XII). Não pode ajudar em nada o nativo.

 

Os pontos acima, se vistos isoladamente, indicariam dificuldades para o nativo, mas não seu falecimento pouco após o nascimento. Tomados em conjunto, porém, mostram um quadro extremamente difícil de ser superado.

 

E se...?

 

A acusação argumenta que a equipe médica deveria ter realizado uma cesariana tendo em vista as informações fornecidas pelo CTG (cardiotocografia), ao invés de tentarem manobras de reposicionamento da parturiente. O mapa abaixo corresponde ao momento em que a equipe médica começou a trabalhar com a mãe:


 

inicio da intervenção da equipa médica
inicio da intervenção da equipa médica



Que diferença!


Sol está agora na casa I, a apenas 3 graus do Ascendente.


A Lua na VII, ainda com força.


Júpiter, o planeta benéfico da seita, é agora o planeta mais forte do mapa, avançando em direção ao Ascendente (no mapa anterior o planeta mais forte era Marte, o maléfico da seita). Este mapa ainda tem pontos difíceis (e que mapa que não os tem?) mas de maneira geral oferece muitos pontos positivos também.



Diga-se de passagem, que uma investigação interna no hospital isentou os médicos de culpa.

Não estamos julgando neste artigo a nenhum dos envolvidos.

A vida é complicada e muitas vezes médicos têm que tomar decisões em momentos em que as informações disponíveis são ainda incompletas, sob pressão, sofrendo cansaço físico e mental, e ainda preocupando-se com todas as regras que têm que seguir quanto a protocolos e assim por diante.  Mas existe neste mapa e em toda situação, uma dor e tristeza que não desejamos a ninguém. Nestas horas sentimos que devemos deixar a astrologia de lado e simplesmente unirmos nossos corações àqueles que sofrem.



 

 

 

 

 

 

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